Esforça-te por merecer!?

Uma vida espiritual do tipo Montanha Russa

 

Quantas vezes neste Natal ouviram dizer: “Porta-te bem senão o Pai Natal não te dá prendas!”. Desde pequenos que somos ensinados a ser dignos merecedores das boas coisas que a vida tem para nos oferecer, e assim aprendemos a “arte” da hipocrisia, pois mesmo crianças, sabemos perfeitamente que não somos perfeitos, que não somos anjos de luz, somos apenas e suficientemente humanos, mas para estarmos à altura das expectativas dos outros vestimos “as vestes da justiça e santidade”.

O mesmo discurso de auto-dignidade é transportado para as igrejas: “As bênçãos do Senhor são condicionais!” ,“Se não semeares (leia-se ofertares, dizimares) não poderás prosperar!”, “se não orares (rezares) muito, não serás ouvido!”, “Se não pagares o preço (se não te esforçares) nunca alcançarás o que Deus preparou para ti!”, “Se não tiveres uma grande fé nunca serás curado!” Se não jejuares, não terás a unção necessária para servir a Deus!”, etc, etc, etc…

A religião, seja ela qual for (católica, protestante, evangélica, muçulmana…) sempre leva o homem a querer ter a sua parte de glória e reconhecimento no dito processo da recompensa divina. Para isso os crentes são levados a testemunhar das suas próprias virtudes, a confessar positivamente as suas “tantras evangélicas”. Os defeitos são escondidos e não confessados, os sentimentos humanos, como o medo e a tristeza, são camuflados debaixo da capa da fé, escondidos na cave de um subconsciente que revelará esses recalcamentos na primeira inundação emocional que ocorrer.

O que diz o Evangelho acerca do merecimento? Jesus ensinou claramente que o caminho que nos leva à bênção de Deus não é o merecimento mas o reconhecimento da Graça divina, i.e. o favor absolutamente imerecido e a consequente gratidão. São atitudes distintas e assimétricas.  Jesus declarou a Sua Graça, o Seu favor incondicional, na parábola do credor incompassívo, ao falar da grande dívida do Homem em relação a Deus. A resposta do devedor foi:” Senhor, sê generoso para comigo, e tudo te pagarei”. (Mateus 18:26). Mesmo agraciado, o Homem quer pagar, quer ser merecedor dessa benevolência. Na cruz do Calvário, Jesus exclamou: “Está consumado!” e não “Esforça-te por merecer!”.

As expectativas são tão elevadas que muitas vezes, as tentativas de viver uma vida perfeita, digna do sacrifício de Jesus, merecedora das bênçãos de Deus, acabam em desistência, em abandono, tornando-se depois numa vida de libertinagem e deboche. “Perdido por cem…perdido por mil!” É como se não houvesse nada entre o teto do merecimento e o chão do pecado. Alguns tentam agarrar-se a esse teto mantendo os pés no chão, ou seja, num esforço de persistência, vivem tentando merecer mas com a consciência culpada pelo pecado e pela pregação normativa, acusatória, que o condena. Sentem-se sentados numa infindável Montanha Russa, ora estando em cima, quando fizeram alguma boa obra que os fez sentir dignos e merecedores, ora em baixo, indignos imerecidos. A vida espiritual torna-se mais um fardo a acrescentar a tantos outros. Um jugo pesado, uma cruz a carregar para o resto das suas vidas. Uma desgraça em contraste com a Graça.

A resposta a este dilema é a vida da gratidão reconhecida, a entrega voluntaria em serviço, em caridade. Só ama quem é amado, só perdoa quem é perdoado, só aceita quem foi aceito, só liberta quem foi libertado. É a tomada de consciência de que nunca poderei pagar o que me é oferecido pelo favor de Deus, mas posso, e quero, viver para lhe agradecer. A minha vida passa a ser um eterno agradecimento. Um “obrigado” demonstrado nas boas obras feitas em prol do próximo, que levam os homens a glorificar a Deus.

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8.9)



 

Sobre António Braga

Residência actual: Luxemburgo. Nacionalidade portuguesa. Casado com Lídia Maria e pai de quatro lindos filhos (Carina, Ruben, Ricardo e Joana). Avô da Noémi e do Julien. Formação académica: Licenciando em Ciências Sociais; Diploma em Teologia e Educação Cristã. Ex-Pastor evangélico, Ex-evangélico. Trabalhando actualmente para o Serviço Veterinário do Ministério da Agricultura do Luxemburgo. Línguas faladas fluentemente: português, inglês, francês.
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Uma resposta a Esforça-te por merecer!?

  1. Terry Melo diz:

    How true!
    What stands out in this comment is the old ways of legalism. A person who wants to work for his salvation, or believing that salvation comes by merit. I agree with the comments being said until the end? I would have to disagree.
    The answer to this dilemma is the life of gratitude recognized, voluntary surrender service in charity. Just love who is loved, who only forgives is forgiven, just accept who has been accepted, who was released only releases. It is the awareness that never repay what is offered me the favor of God, but I can, and I would live to thank him. My life becomes an eternal gratitude. A “Thank You” demonstrated the good works done in favor of others that lead men to glorify God.
    It is well put and said. However the answer to this dilemma is to repent, and realize how sinful it is to try attaining our salvation. If we truly think this way we need to study the letter of Galatians. We are not saved by merit, nor by our hard work, Saved Because of faith (total trust and dependence on Jesus for my salvation). We can’t! Naturally, do good, or I should say live up to God’s righteous standards according the law. Why? We are dead in our sins, basically we are all dead men walking (those of us who don’t have the seal of salvation). When we take a look at the full length of the letter of Ephesians chapter 2 from verses1 to verse 10; We can see how we are dead in our sins (verses 1 to vv.3) Look at the words, —-Dead to trespasses and sin
    -walked once in the course of the world and the passions of the flesh
    -controlled by our enemy the one and only dummy the devil
    -doing what is right or controlled by our natural mind set (sin).
    Okay! Now, can I truly attain heaven and eternal life, a life that pleases the father by my own merits. Big NO!
    Then we get the big idea when we read the rest from v4 to vv10.
    I just think the answer is repentance (not worldly repentance), but a repentance that is directed by the Holy Spirit, leading us to His word, applying what we read. Ultimately as the puritans strived for “Living a life to glorify God.”

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