O sacrificio está de volta!

Depois da imolação de vitimas em holocausto ter sido interrompida quando da destruição do templo de Jerusalém, o sacrifício voltou!

Os evangélicos juntam-se aos católicos na promoção da prática do sacrifício. Não mais o “Korban” (a oferta solene do animal como acto de propiciação que aproxima o judeu da divindade) mas, agora, o sacrifício feito pelos fieis com o objectivo de obterem favores, bênçãos, graças, curas e prosperidade material junto de um deus exigente e que, dizem, se agrada de sacrifícios.

Os católicos foram longamente acusados pelos protestantes e evangélicos de realçarem a teologia do sacrifício. De praticarem e fomentarem actos de mortificação, de privação e castigo corporal,  e de não valorizarem o sacrifício “único e suficiente” do Cristo feito na cruz em prol dos pecadores, afim de lhes oferecer pela Graça, e de graça, as bênçãos terrenas e eternas que de outra forma, e por nenhum outro sacrifício, poderiam jamais obter.  Pois agora juntam forças na divulgação das vantagens da renuncia e abnegação sacrificial, realizadas pelos devotos desta prática que volta a colocar o homem no centro da sua religião.

Dentro dos valiosos templos a que os cristãos chamam “a casa do Senhor” (como se Deus morasse em habitações feitas pelas mãos dos homens), os seguidores são ensinados a agradar a Deus “pagando o preço”,  isto é, efectuando algum tipo de actividade espiritual que lhes seja penosa, ou então, dando inicio a um processo de retribuição divina, ofertando algo que lhes seja caro.

As actividades espirituais espinhosas passam por orar (rezar) demoradamente, e sobretudo em certas horas da madrugada, porque essas parecem ter mais sucesso junto de um deus que afinal… nunca dorme. “Fazer uma hora de oração às 3 da tarde, nunca fará o mesmo efeito que orar três horas às 4 da manhã, dizem os “Mestres em Sacrifício”.

Como se não bastasse praticar longas orações a horas tardias, este exercício deve ser efectuado numa postura incómoda para o corpo, por exemplo, de joelhos, porque “é necessário mortificar a carne, para pagar o preço” dizem os “Avivalistas do Sacrifício”, cometendo o típico erro de confundir “a carne” com o corpo.

O jejum é outra prática que se tornou igualmente num sacrifício espiritual, na medida em que os mais prolongados são os mais respondidos e que alcançam maiores benefícios. Esta privação de alimento é muitas vezes uma autentica greve da fome, com o objectivo de fazer pressão junto de  Deus quando  responde tardiamente. É outra forma de se “pagar o preço”, o preço da resposta de Deus.

Mesmo o aprazível acto de adoração tornou-se num “sacrifício”. A expressão “sacrifício de louvor” que deve ser entendida como “dádiva de louvor” passou a ser sinónimo de uma manifestação de adoração contrária à vontade de quem a realiza. “Se não tens vontade de louvar Deus então dá-lhe “sacrifício de louvor” e  assim Ele se agradará de ti”, dizem os “Sacrificadores”.

O que dizer então das “ofertas sacrificiais”, dízimos e dádivas que colocam Deus (Mamom?) na obrigação de responder abundantemente. São autenticas transacções financeiras aonde se esperam juros elevadíssimos. O crente é levado a acreditar que está na origem da bênção, que é o iniciador do processo da prosperidade divina. Para tal, ele deve ofertar em completa atitude de sacrifício, acima das suas posses. O tamanho da graça divina é proporcional à quantidade do sacrifício efectuado.

Mais do que acções de sacrifício, os religiosos, zelotes, apelam a uma vida de sacrifício, de abnegação, de privação. Uma vida de tédio e de enfado, cinzenta e chata. Lembram que o discípulo de Jesus deve carregar a sua cruz diariamente, dando ênfase à morte simbólica do cristão e  omitem a vida em abundância que lhe  pertence por direito. Mesmo para morrer quotidianamente é necessário ressuscitar todos os dias! Que vida entusiasmante é aquela vivida no poder da ressurreição! É uma questão de ênfase, mas para aqueles que  vêem a existência como um sacrifício, o realce é dado à negação do prazer de viver. Por vezes lá deixam escapar: “somos o povo mais feliz da Terra!”. Pois…pois…

Quero deixar bem claro que, como discípulo de Jesus, sou completamente a favor da prática destes três pilares da vida cristã ensinados por Jesus no “sermão da montanha” (Mateus 5-7) :  As esmolas, a oração e o jejum. Mas é importante entendermos que Jesus não promove o sacrifício. A esmola, ou oferta , deve ser feita com satisfação “porque há mais alegria em dar do que em receber” , nunca  originada em qualquer pressão ou manipulação. A oração, e também na forma de adoração, deve ser a consequência natural de um relacionamento saudável e agradável entre o filho de Deus e o seu Pai celeste. O jejum  não é uma arma contra o Criador, quando realizado segundo as instruções do Mestre,  deve ser de tal maneira que não demonstremos a ninguém, sacrifício ou tristeza.

O Senhor nunca aceitará acção alguma que não provenha de um coração voluntário, agradecido.  Acção que  seja motivada pelo reconhecimento da Sua Graça, da Sua compaixão e bondade, e não pelo esforço ascético que através do sacrifício pretende colocar-se no lugar de causador e merecedor da bênção.

“Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício…” (Mateus.9: 13)

Sobre António Braga

Residência actual: Luxemburgo. Nacionalidade portuguesa. Casado com Lídia Maria e pai de quatro lindos filhos (Carina, Ruben, Ricardo e Joana). Avô da Noémi e do Julien. Formação académica: Licenciando em Ciências Sociais; Diploma em Teologia e Educação Cristã. Ex-Pastor evangélico, Ex-evangélico. Trabalhando actualmente para o Serviço Veterinário do Ministério da Agricultura do Luxemburgo. Línguas faladas fluentemente: português, inglês, francês.
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